Pessoas pelo Caminho

Antes de começarmos essa viagem, nós nos preparamos durante alguns anos. Nessa preparação, lemos vários livros sobre viagem, sobre viagem de moto, de carro, de avião; sobre viagens que duraram anos ou até uma vida toda; e também sobre viagens eventuais de férias de apenas alguns dias. Também conversamos com vários viajantes e um tema sempre se repetia, sobre como os viajantes encontravam pelo caminho pessoas que os ajudaram.


Eu costumava ser meio cética com relação a isso, por dois motivos. Primeiro porque eu pensava que essa ajuda de estranhos poderia vir no dia-a-dia mesmo, não precisamos estar viajando pra encontrar pessoas legais. E também, eu sempre achei que as pessoas não iam saber que estávamos viajando e, portanto, essa ajuda a viajantes não iria acontecer conosco.


Porém, quem já viu o Howdy, sabe que não passamos despercebidos por nenhum lugar! E olha, nós encontramos pessoas dispostas a nos ajudar sim!!!


No final da trilha de 8 dias que fizemos, nosso carro quebrou. Calma, não foi acidente, foi cagada mesmo. Estávamos numa estrada estreita, e ao desviar um pouco para o lado para deixar passar um carro que vinha na outra direção, acabamos caindo com as rodas direitas num pântano. Nessa hora, o motorista do carro que estava vindo na outra direção parou pra ajudar, e vimos que ele era um policial! Logo depois chegaram mais dois carros, de um outro policial e do major da cidade. Eles nos ajudaram a resgatar o carro, que na hora de sair do barranco quebrou o eixo direito.


Howdy no buraco

O carro ainda andava, mas precisávamos ir pra um mecânico urgentemente. Os três nos ajudaram a procurar a Toyota mais próxima, nos deram a direção da melhor estrada pra chegar lá com o carro quebrado, e ainda por cima nos escoltaram pela maior parte do caminho!


Ficamos então num hotel por 5 dias, esperando que o carro ficasse pronto. No segundo dia de hotel, um senhor se aproximou puxando conversa, e nos disse que estava na cidade para ir em um evento de carros, chamado Dragway Race, onde carros modificados disparam por 3 segundos em velocidades extremas. Ele nos disse que era um evento que tínhamos que ver, pelo menos uma vez na vida. Que você sentia no peito a aceleração dos carros, e que alguns ainda soltam fogo! Agradecemos e dissemos que talvez fôssemos no evento mesmo. Nesse mesmo dia, mais tarde, ao sairmos do quarto do hotel, vimos que ele havia deixado dois pares de protetores de ouvido na nossa porta, como um lembrete do convite para ir no evento! Esse gesto pequeno foi muito significativo para nós, que obviamente fomos no evento - realmente é uma experiência única.


Felipe na Dragway Race - usando os protetores de ouvido que nosso amigo nos deu

Nós também acabamos ajudando algumas pessoas que encontramos pelo nosso caminho – outro dia demos carona para um backpacker que estava fazendo a Appalachian Trail completa (umas das trilhas mais conhecidas dos EUA, que as pessoas costumam levar mais de 3 meses para completar por inteiro); ele pediu carona para ir a um hotel encontrar seu filho, que também estava fazendo a Appalachian Trail. Eu já li alguns livros sobre pessoas que fizeram trilhas, esse universo me atrai bastante, e foi ótimo conversar com alguém justamente no meio de uma aventura dessas! Ficamos tão animados que, alguns dias depois, fizemos um trecho da Appalachian – bem pequeno, de algumas horas só, mas que só fez crescer nossa vontade de fazer mais e mais trilhas!


Livros sobre trilhas (romances, não guias) – recomendo:


- “Wild”, Cheryl Strayed

Cheryl conta a história de quando sua mãe morreu, seu casamento acabou, e ela decidiu andar a Pacific Crest Trail, sozinha. A trilha durou alguns meses e a transformou por completo. Difícil não se emocionar, e pensar o que você faria se estivesse no lugar da Cheryl.


- “Into Thin Air”, Jon Krakauer

Do mesmo autor de “Into the Wild” (sobre o caso de Christopher McCandless que, aos 22 anos, largou tudo para viver sozinho no Alaska, história que não acabou bem. Também recomendo esse livro!), em “Into Thin Air” Jon conta a história de quando escalou o monte Everest, em 1996.


- “A Walk in the Woods”, Bill Bryson

Essa é a opção mais leve e engraçada. Bill, sem preparo e de calça jeans, fez a Appalachian Trail com um amigo (igualmente despreparado) e a história é muito divertida de ler!

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