Juntando as Fases

Pronto, começamos a viagem. Às 4 da manhã estávamos acordados, colocando as últimas coisas no carro e limpando o apartamento. A dona do apartamento havia pedido para darmos uma limpada nele, principalmente na cozinha, o que já me deixou um pouco apreensiva. Não pela limpeza, mas porque eu sabia que o Fê ia querer ficar horas limpando, até que tudo estivesse brilhando. Ter marido que gosta das coisas limpas é uma beleza, até ele querer te acordar às 4 da manhã pra limpar um apartamento que não é nem seu.


Separando o que vamos levar na viagem

Apartamento limpo, carro carregado, chegou a hora. Vamos morar por um ano no carro, sem endereço fixo, dormindo em campings, hotéis, sofás alheios. Sonhei muito com esse dia, quando não ia mais precisar acordar cedo pra trabalhar. Pelo menos por um ano ;)


Nosso primeiro destino - agora a palavra destino tem outro significado, tudo pelo caminho também é um objetivo, um destino - é uma trilha de 8 dias que sai de Nova Iorque e vai até a Virgínia. Essa trilha foi desenhada para motos, e nós vamos fazer ela porque o Fê gosta de se conectar com o mundo das motos, mesmo que agora ele esteja viajando em 4 rodas (5, se você contar o estepe. Você conta o estepe? Existe uma convenção pra isso? Eu sei tanto do mundo de carros quanto eu sabia do de motos). Então estamos fazendo uma trilha de motos, mas de carro, que passa por 5 estados. Sabe como é trilha né, estrada de terra, às vezes pedregulho, sempre com muita poeira e obstáculos. Aparentemente os obstáculos são a grande diversão pra quem faz trilha, mas não pra mim. Pra mim, a principal diversão é ficar próxima da natureza, ver as paisagens mudando pela janela (e retrovisor ;) ), estar longe do barulho e trânsito da cidade, ver os animais da floresta.


Pensando em como cheguei aqui, fazendo uma trilha fechada numa floresta da Pensilvânia, percebo como mudei nos últimos anos. Na verdade, não só nos últimos anos. Penso que nossa vida é feita de fases, e quanto mais aprendemos, mais nos aproximamos daquilo que queremos ser. Por muito tempo eu não gostei de campo, lagos, florestas. Não via sentido em quem viajava pra ver paisagem (todo esse trabalho pra ver mato??), ou até em quem se mudava pro interior. Eu era da cidade, gostava de ir em museu, ver pessoas, andar de metrô. Curtia um desenvolvimento, ver as pessoas produzindo e as coisas funcionando. Hoje entendo que essa fase já passou, o que significa talvez que eu já tenha aprendido o que precisava aprender viajando e morando em cidades. Aproveitei muito meus anos em São Paulo, e em Nova Iorque. Fui em muitos museus, trabalhei em muitos escritórios, aprendi a ser rápida e eficiente. Agora é a minha fase de ir pro campo, andar descalça, suja, conversar devagar, fazer comida na chuva.


Hora de aprender a acampar (na chuva)

Não quero desaprender tudo o que a minha vida urbana me ensinou, mas adicionar o que vem pela frente. Juntar as duas fases e me fazer mais completa.